Produtor independente de Taubaté poderá lançar nova série da Fox.

Cineasta morador do Vale do Paraíba participa de concurso proposto pelo canal Fox e se for escolhido terá o projeto produzido  

Um estudante de cinema de 29 anos, morador de Taubaté,se inscreveu no concurso Fox Produções Originais e se for escolhido poderá ter o projeto lançado no canal. Antony Nilman, que estuda Jornalismo na Universidade de Taubaté e tem curso técnico de cinema, diz estar otimista com a oportunidade. "É muito satisfatório poder participar de um concurso desse nível, sem dúvida será uma porta importante que se aberta nos encaminhará a novos projetos". Antony é o fundador da empresa cinematográfica Arquétipos filmes que produz curtas metragens independentes para a internet. O concurso permanece com as inscrições abertas e mais informações podem ser acessadas em www.foxproduçoesoriginais.com.br.

Escrevendo Sofia - I

Salve traça,

A ideia é:
Todas as segundas: um conto / texto / alimento para traça, novo.
Todas as quintas: um trecho de Escrevendo Sofia.
Hoje começo com Escrevendo Sofia. A história é maluca, mas sua loucura vai se revelando aos poucos. Não vou adiantá-la. ;)
Não gosto muito do texto, mas, eu acho, que ele vai melhorando aos poucos.








Escrevendo Sofia

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa,, se alguém escrever,
A verdadeira história da humanidade.
Álvaro de Campos



I

Aquecer a glacial vida com um pouco de morte. O cemitério, o velório público, tudo higienicamente abandonado, distante; diria, coletivo, impessoal. Não! A noite já deitava suas carícias nas partes íntimas, era hora de visitar um velório privativo, casa de luxo, bairro de outro mundo, rostos conhecidos em sofrimento disfarçado. Do bolso de seu casaco o homem em preto retira uma das notas de cinqüenta reais e entrega para o dono do bar. Despede-se da suçuarana dormindo em seu galho, belo quadro, e parte ouvindo o homem a gritar-lhe pelo troco. Suçuarana dormindo sossegada ao som ambiente de Country music americana? Por que não? Por que não chamá-la onça? Suçuarana. A vida; amontoado de escolhas estranhas.
Pelas ruas ambulâncias choram em desespero enquanto o homem de casaco preto caminha, cabisbaixo, no verão tropical. À brisa quente de um bueiro ocasional ele ajeita seu cachecol. Caminha certeiro, seus dentes abraçam-se incessantemente, calafrio, febre. A vida; uma seqüência interrupta de delírios travestidos de realidade.
Memórias; talvez dez anos atrás, ele se revê recebendo a dádiva: um sobrenome, Sr Montuani. Os Montuani, família enriquecida pelos anos regados pela escravidão; muito dinheiro e status.  E agora a vergonha; o casamento de sua filha mais nova, Tatiane, com um desconhecido. Um garoto de merda, de uma família de merda. Sim,  embora ande com as costas arcadas o homem em preto já fora jovem.
A memória: Lucas, deitado no quarto dos fundos de uma mansão, ao seu lado a jovem Montuani, uma mulher qualquer, sua futura esposa. Em sua mente, o fim do túnel, visto do ponto de vista da imensa garganta de seu pai, deformada por ter engolido todas as misérias da vida simples. Casar-se com uma mulher rica, não era essa a única salvação para uma pessoa como ele? Toda a luz no fim do túnel não seria capaz de iluminar as trevas que se seguiram.
A vida: Lucas Montuani, em preto, caminhando rápido em direção a um velório.

II

O mundo vai acabar, disse o velho. Assim tem sido, respondeu o homem de casaco preto. Um trago, um gole, os dois se olham; o silêncio é a manifestação mais palpável de Deus. Sobre eles uma ponte une o centro da cidade ao Jardim das Nações, bairro nobre, rico e silencioso. Grandes casas abandonadas aos cuidados de vigias invejosos e empregadas sonhadoras (como adjetivar a alienação completa?).
Teria a paciência de escutar um velho contar uma velha história? Um trago, um gole, Deus e uma buzina. Sr Montuani decide escutar o velho. 
Tudo aconteceu em uma esquecida cidade na qual o Sol brilhava abaixo do chão, a antiga Lástima, sim, haviam escolhido mal o nome, mas isso não mudava o fato de naquelas terras haver muito ouro. Sabe, morreram lá muitas pessoas, e veja bem que naqueles tempos ainda não era comum morrer sem ter vivido. Lá, naquela cidade que nem todo o brilho do ouro era capaz de iluminar, permaneci por vários anos no encalço da felicidade, ou melhor, do ouro.
Não ria.
    Todos os dias, ao voltar do cansativo trabalho nas minas, eu passava em frente ao cemitério; era o caminho para minha casa, e lá sempre via um velho sentado na sombra de um poste. Embora ainda carregasse muitos dentes na boca, já tinha o costume de me atentar às pessoas ao meu redor. Aquele senhor me intrigava; deverás. Sentava-se sempre na sombra do poste, de maneira que o imaginava como um relógio solar em forma de velhice. Certo dia, quando os céus caíam sem trégua,  e meus passos eram firmes e rápidos, rumo a minha casa, vi-o na chuva, cabisbaixo. Não suportei – Senhor, qual o sentido de tomar esta chuva? – Não se engane meu rapaz, não havia bondade em minhas palavras, curiosidade era o que me movia.
   Vagarosamente ele tirou um relógio de seu bolso, uma antiguidade, conferiu as horas com um sorriso nos olhos e então se levantou. Com suas duas mãos enrugadas ele jogou seus cabelos para trás, jovialidade inesperada. Olhou-me e sorriu. De seu paletó tirou uma pequena garrafa, tomou um gole e ofereceu-a a mim. Chuva, frio e curiosidade; sim, obviamente aceitei. E assim ele me perguntou, entre um gole e um sorriso – Qual o sentido?
    Por um breve segundo nossos olhos se tocaram; profundamente.Sabe meu jovem, hoje sou velho, feio e meu o odor afasta até mesmo os pássaros, porém houve um tempo onde tive muitas mulheres em meus braços. Apesar disso, digo-lhe do fundo do que ainda me resta de coração, aquele momento em que encarei aquele velho foi a maior experiência de intimidade que já tive em minha vida. Aquele matreiro desvendara minha alma, e,  após uma piscadela, rimos. Rimos como africanos a trocar negros por cachaça; rimos como um aniversariante que celebra seu centésimo aniversário; rimos, e na sombra de nossos sorrisos estavam os restos de todo o resto. Qual o sentido? Sim! Há piada maior?
      Caminhamos até a praia, cientes da cruz que trazíamos atrelada à nossa felicidade. Como grandes mandíbulas famintas as ondas abocanhavam a praia deserta. Vento, chuva e fim de tarde, paisagem afrodisíaca para um suicídio. Arranje um pedaço de madeira. – disse o velho - Fácil, tomei-o da árvore ao meu lado. Um grito logo fez–me perceber a falha. Tem de ser galho seco, morto há tempos. – Certo, alguns minutos mais e entreguei-lhe um pedaço de madeira encontrado próximo ao lixo. Qual o sentido, o jovem quer saber? – Esbravejou o velho para o vento, seus passos lentos o levavam para as ondas. Por instantes pensei o pior, porém ele parou próximo o suficiente para ter os pés açoitados pelo mar. Mãos firmes, um desenho na areia. Um círculo.
   Um círculo a mão livre, na areia, efêmero como o carinho das ondas na praia. O tempo se acalmara e a Lua já se estendia no céu. Uma vez mais o velho desenhou, um círculo, e uma vez mais, as ondas tomaram seu desenho. Aquilo me parecia loucura, mas de um tipo estranho, algo como uma sabedoria somente acessível por vias tortuosas.

   Tome, não preciso mais deste relógio; agora é seu. – disse-me aquele velho, envolto na  escuridão de uma noite há muito passada. E é exatamente isso o que lhe digo, jovem. Leve com você agora este relógio. 
Estas foram as últimas palavras ditas pelo velho ao homem de casaco preto. Que rindo, prosseguiu seu caminho, ignorando a oferta do velho.

Um círculo desenhado com um galho morto na areia da praia, continuamente sendo refeito, só para ser apagado pelas ondas? Esse é o sentido? Que piada. E ainda queria compartilhar comigo sua maldição com ares de trabalho feito? De sabedoria? Velho maldito. – E pensando, longe, o homem em preto ia. 

Frente e verso

Salve traça,

   Hoje posto um conto que foi apreciado por algumas traças do "mundo real". Este conto foi um dos finalistas do Mapa Cultural Paulista 2013-2014. Segundo os organizadores, uma Antologia seria publicada com os contos e poesias finalistas. Como esta antologia foi prometida para o início do ano de 2015 e até agora nada, vou postar por aqui mesmo.Traça por traça, vocês são as minhas favoritas. ;)







Frente

Era uma vez é coisa de criança velha, solitária e de mente ociosa. Daquele tipinho de pessoa que planta flores em estufa e espera por borboletas. Daqueles sujeitos que percorrem as ruas carregando quilos de amor indigesto, cuspindo em todos, orgulhosos de seu romantismo de mamãe. Fabinho, formado em Letras, escritor de pérolas pós-modernas, poesia visual e tudo mais, além de fessor da molecada do fundamental, é dessas pessoas. Pegou o ônibus hoje só para fazer sua parte, essa coisa de evitar o aquecimento global sabe? Sem falar, que ele, escritor, tem de conhecer essa figura peculiar: o povo. Não vou dizer que ele está arrependido, sabe como é? Esta gente se manipula muito bem; come carne de soja e fala que é delicioso.
          Parado, dentro do ônibus a caminho da escola, o professor-escritor filosofa assistindo uma peladinha infantil na chuva. Os moleques parecem colocar a vida em campo, Fabinho vê nisso a fibra brasileira. Um deles, que estranhamente é bem branquinho, se destaca. Vê-se que é fonte de inveja constante, brinca com a bola, entenda: faz todos os outros meninos de bobos. É chapéu em um, vão de perna em outro, drible da vaca, e lá está o pivetinho, de cara com o gol. O craque em miniatura estaca frente ao goleiro, o gol não é seu objetivo, quer fazer de besta a molecada. Eis que recebe um pontapé, cai e chora, ou não, a chuva esconde as lágrimas. Um pouco de bagunça e estão reorganizados, hora do pênalti. Fabinho acompanha atento, empolgado com a história do menino, torce para que ele perca o pênalti, a habilidade, a vontade de jogar, que fuja da maldição do crack. Futebol não dá futuro, é uma ilusão hereditária propagada nas favelas só para enterrar de vez a vida dos meninos, eis a conclusão, já velha, do fessor. Fabinho imagina um conto:
Após perder um pênalti, o garoto que era visto por todos como um futuro profissional, desiste da potencial carreira de jogador e se torna cientista, descobre a cura da AIDS, ou não, algo mais simples talvez. Poderia inscrever esse conto em algum concurso, e se ganhasse, enfim, o descobririam, valorizariam seu trabalho...Sim, poderia dar voz aos necessitados, coisa social, sabe? Ajudar esse país tão carente. Mas sem papel para dar concretude a ideia, o esquecimento é certo. Mas agora não, apenas torce, o garoto precisa errar, isso seria uma profecia para ambos.
            O ônibus parte, liberaram a via, não há mais corpos, sangue ou metal de carro-do-ano retorcido, apenas o asfalto, abarrotado de pneus e impaciências enlatadas. Fabinho não viu a conclusão do lance da pelada, mas tinha a história, ao menos até esquecê-la, na cervejinha de sexta; prazer merecido de trabalhador, não? Fato estranho, que também serviu de lenha para o motorzinho criativo de Fabinho, foi a garota que estava no ponto de ônibus, protegida da chuva por uma sombrinha amarela, toda molhada. Ela lhe deu tchau...Quem seria está garota? Qual a razão deste gesto? Será que foi para ele mesmo? Esta história se perde rápido. O poste caído na avenida, vestígio do acidente, é autoritário; demanda atenção.




Verso

           Maria Estefânia, a menina do ponto de ônibus, é do mesmo tipinho que Fabinho, tem como o inferno a falta de guarda-chuva em dia nublado. Pertence a nova classe média, peculiarmente calada e só. Vive em seu apartamento, pago com muito suor, acompanhada do fedor de uma família de gatos sobreviventes ao cinza da dona. Ela é dessas pessoas que colorem a vida com giz de cera e comem algodão doce com culpa canibal. Nome de novela mexicana e coração de autoajuda esta é Maria Estefânia, que agora fantasia a praia ensolarada, ao pôr do sol, na qual se casa com um belo jovem que viu no ônibus. Mas ele se fora. O destino é ingrato e cruel...Não! A culpa é minha, pensa, deveria ter entrado no ônibus, ter tido coragem, declarado meu amor à primeira vista.
            Há algo em comum entre estas duas pessoinhas: Fabinho e Maria Estefânia: ambas nutrem o solo infértil de suas vidas com sonhos em palavras. Porém, a mesma palavra que os une os separa: a de Fabinho busca a poeira da biblioteca, mas mesmo nesse ambiente esquecido é necessário etiqueta, logo, ele a traveste de social, a perfuma com suor do povo. Por outro lado, a palavra de Maria Estefânia quer ser e-moção, mas sem movimento. Vê na leitura solitária das entranhas do que somos, não os anseios mal digeridos, mas as sementes de um algo qualquer, que é a beleza de que são feitos os alimentos da traça, as páginas dos livros.
          Em uma noite, em um lugar não distante daqui, Maria Estefânia, com dor no coração, abandonou seus gatos com a síndica, recém divorciada e quarentona, para buscar amor. A esperança venceu o medo, tal qual na propaganda. Partiu para desbravar o desconhecido, mergulhando num mar agitado por correntes de paixão; oceano em copos de cerveja. Sim, a investida noturna tinha ares épicos. Maria Estefânia, maruja sem experiência, não tardou em sentir soçobrar o estômago. Ao seu lado, um tritão, para tirar água da metáfora, lhe ofertava o canto, ou melhor, o braço, para evitar a queda da beudinha trôpega. Era ele, o belo rapaz do ônibus. É o destino! Esta é sua chance de ser feliz, seu príncipe encantado viera salvá-la. 
Pergunto-me: será que Maria Estêfania se lembra desta noite?
Viveram felizes para sempre é coisa de criança velha, solitária e de mente ociosa, feito estes dois aí. Mas eles não são gente como a gente, dão linha demais para a pipa, ficam presos no vento longínquo de outros ares. Não são práticos como nós. Não cresceram, essa é a verdade. Têm mais é que se foder, pois a vida ensina; se não for por amor é na dor, não é? Essa gentinha você reconhece fácil, é livro dando movimento aos olhos e imaginação empurrando a vida. Ah, nós não somos assim, pois esse tipinho de pessoa, que vive em contos de fada, quando você reflete um pouco, se torna o que mais admiram: baboseira romanceada. Não sei de você, mas eu não sou assim; definitivamente. Não me interessa o fim desses dois, o único fim que me interessa é o do mês; nada mais















Crédito:Imagens de um caderno antigo postadas no Facebook por Lourenço Mutarelli. 

Vida adulta

- Aguarde aqui - ela disse para o taxista - levará em torno de uma hora.
- A senhora não quer chamar outro táxi depois? É que vou ter que deixar o taxímetro ligado.
- Não, espera aqui.
Sem esperar reação Lidiane seguiu seu caminho. Era mais uma manhã de um sábado qualquer, nada em especial. Só mais sábado que amanheceu depois da sexta-feira; de novo. A poeira de toda uma semana se assentara na casa de Romeu, seu ex-marido, e agora era preciso limpá-la. Eis o plano. 
Lidiane mantinha os escombros do homem amado naquela casa. Eles eram apenas namorados, nem se conheciam muito bem, mas a morte inesperada de Romeu deixou um sentimento azedo em Lidiane. O que eles poderiam ter sido? A morte precoce de sua única paixão, embora ela não gostasse de pensar muito sobre isso, levara consigo um pedaço dela, a parte que sabia viver.
Romeu fora um homem muito recluso. Aos seus quarenta anos não tinha família ou amigos. Vivia em seu apartamento imerso em sua biblioteca, imerso em si, mergulhado em dosinhas de uísque, como ele gostava de dizer. Lidiane o conheceu no supermercado em que é caixa. Aquele quarentão misterioso, sempre com uma máscara de simpatia e educação. Após meses de sorrisos lançados sem resposta, ela se excedeu e flertou com ele de forma mais clara. Daí em diante tudo foi rápido. Sexo, álcool e sexo: estavam namorando.  
Após quase um ano de relacionamento ela conseguira quebrar o silêncio de Romeu, sabia uma coisa ou outra da vida dele, uma coisa ou outra de sua personalidade, uma coisa ou outra... Mas era o suficiente. Só o que não foi suficiente foi o tempo. Ele falecera de câncer no pulmão. Somente Lidiane velou o corpo; uma noite de silêncio para pensar no que nunca mais seria: eles. O enterro foi simples e solitário. Ela, um buraco, um caixão e dois funcionários da prefeitura. A senhorita soitária derramou apenas uma lágrima, egoísta, pois sabia que enterrava com aquele homem, que mal conhecia, uma parte de si.
O tempo passara, mas ela mantivera uma rotina. Viúva por escolha, aos sábados ia até a casa de Romeu fazer faxina. Manter limpo o museu, manter fresca a memória, manter viva a vida. Como quem entra no sarcófago de si própria, ela adentrava o pequeno apartamento de seu ex-marido, todos os sábados pela manhã, sem exceção.
O apartamento do ex-marido era minúsculo. Um quarto, um banheiro e uma sala que era também cozinha, além de escritório. O falecido possuía um toca discos, uma imensa coleção de LP’s e muitos reservatórios de poeira. Muitas vezes Lidiane tentou entender a lógica da organização das centenas de vinis, mas ainda não conseguira. Não seria hoje o dia que desvelaria esse segredo.
Vassoura em mãos e algo de noite ainda em seu rosto ela inicia seu papel nessa história. Sua mente flutuava baixo, tal qual a poeira que ela movia de lugar com suas vassouradas de estimação. Acordando, devagar, ela divagava a pensar sobre tudo isso. É isso vida? Aqui? Varrendo sem saber porquê ? Varrer... A esta altura da vida deveria saber mais, ter menos perguntas e mais respostas. Três décadas, trinta anos e viúva; por escolha. Mas o que esses números diziam sobre a mulher que tirava o pó da casa de seu, para sempre, ex-marido? Trinta anos, um período de tempo, uma vida. Minha vida? E pensando ela sentia algo como uma percepção, inquieta, se remexer em seu cérebro. Intrigada ela seguia as ramificações desse pensamento, descuidada, em busca de resposta.
Tinha família, tinha amigos. Oras, não era uma pária reclusa, feito Romeu. Seus dias exibiam pessoas que importavam e outras que não. Simples. A dificuldade era ter de interagir com o mundo. Por isso gostava tanto de Romeu, ele não perguntava sobre o dia de trabalho ou sobre os problemas familiares; sobre as razões para o novo corte de cabelo ou para a lágrima que descia sem ser chamada nos momentos pós sexo.
No aconchego do silêncio que compartilhavam eles fizeram a morada do relacionamento, ignorando todas as palavras desgastadas do convívio cotidiano. Eles haviam chegado a seguinte conclusão: a mais simples das perguntas, Está tudo bem com você?, por exemplo, sempre recebia como resposta uma mentira. Logo, se a resposta será sempre mentirosa, por que se importar em responder? Ou mesmo, qual a razão para perguntar?           

Vamos, volte, o taxímetro estava ligado lá fora. Ela não tinha como se perder em pensamentos pelo tempo que quisesse enquanto sua conta com o taxista continuasse a aumentar, essa era a sua âncora.  Era adulta, e, portanto, tinha responsabilidades. Nada de divagar por horas no apartamento do ex-marido morto. Tudo tinha preço, e alguns ela não podia pagar. E assim recomeçava a limpeza, agora mais objetiva.   
Adulta, sim, era adulta. Mas o que era isso? Trilho após trilho seguir criando seu caminho: trilhando? Máquina a vapor rumo à estação desconhecida? Mas por que seguir quando, quanto mais distante se está, mais passageiros se perde? Por que seguir se a cada passageiro que se perde, torna-se cada vez mais leve, mais vazia? Qual o propósito de um trem de passageiros sem passageiros?
Adulta, táxi, dinheiro. 
A sala estava limpa. Sem pó nas estantes, sem sujeira no chão. Hora de partir para o banheiro. O tempo é caro dentro da casa. No banheiro, ao menos, não há muitas lembranças. Trabalho rápido, ok? Pensava Lidiane, segundos antes de...
O espelho. A mais humana das invenções.  Quão falso pode ser o reflexo? Lidiane era bela, ainda não tinha marcas claras de idade a lhe emoldurar a face. No entanto, como poderia crer naquilo que via? Ela, que também revirava com a vassoura cada canto de si, que sentia o cheiro ruim dos becos de sua consciência, que tinha noção de quão horrenda fora capaz de ser; como crer naquele reflexo; belo? A única verdade disso é a poeira que a todos cobre: eu e o espelho.  Varrer?  Limpar? Desculpas para ritmar o pensamento com realidade, para dar gaiola à melancolia. As vezes penso que, mesmo Romeu, não passou de uma desculpa para eu existir.
Era adulta. Tinha mais respostas que perguntas; sim!  Um exemplo para sua sobrinha, para os maios jovens. Era adulta...e mentia. Era adulta e a maturidade nada mais era que o desenvolvimento da capacidade de falsear tudo, seja para si, seja para o outro. Do velho da padaria à amiga mais próxima, a poeira da mentira cobria todos os pontos de sua relação adulta com o mundo. Casar-se, amar, viajar, conquistar sua casa, a liberdade do carro, o sucesso, filhos, saúde, orgulho, universidade, serviço cumprido, parabéns!, a terceira idade, netos, a melhor época e, sorrindo, cruzar as mãos sobre o peito, agradecida pela vida e por ter tido o bom senso de se calar, de se convencer, de mentir, de viver, feito uma adulta. Adulta! Varra! Limpe!
E a poeira subindo aos ares trazia consigo um espirro antes de se deitar sobre um novo objeto. Nossa...acalme-se mulher! Está se excedendo. Olha no relógio e decide. Precisa se apressar. É quando um ruído a convoca. A campainha toca. Lidiane, intrigada, para de varrer e vai em direção à porta. Abre a porta e um sorriso. Prontamente se abre ao mundo externo.
- Bom dia, tudo bem? – Ela diz, agindo por reflexo.
- Bom dia, estou bem. E a senhora? - Responde um homem, na altura de seus 18 anos, um garoto, impecavelmente embalado em um terno escuro. Com uma pasta na mão e um sorriso no rosto ele se convida para entrar. Diz vir em nome dos interesses mais urgentes e importantes de Lidiane. Ela não se questiona, deixa-o entrar. Sente-se estranhamente atraída pelo rapaz, especialmente por seu sorriso. Vê-lo sorrir é como uma memória feliz, há muito levada pelo tempo.
Ele senta-se à mesa da pequena cozinha do apartamento de Romeu. Coloca sua pasta na mesa e retira um calhamaço de papéis. Rápido e eficiente, em meio a várias folhas, localiza a que procura e guarda o restante de volta em sua pasta.
- Senhorita Lidiane Madalena Augusta, sente-se, por favor – Disse, pausadamente, inclinando de forma sutil o rosto e apontado com a mão a cadeira à sua frente.
Lidiane, que estava ainda à porta, ainda sem entender o que se passava, fez tal qual o rapaz pedira. Sentada, agora, olhava-o intrigada. O que poderia querer com ela aquele jovem? De perto o rosto do jovem era encantador, porém olhá-lo fixamente causava repulsa. Era jovem em demasia, vivo por demais. Não havia uma só imperfeição em sua pele; juventude em perfeição. Seu perfume, de flores, trazia consigo tardes perdidas de uma infância imemoriável. Sentar-se ao lado dele era como reencontrar um velho amigo, que se perdera nas veredas da vida. Era reconfortante.
- Senhorita Lidiane, eu poderia chamá-la de Lidiane? – E sem esperar resposta prosseguia com seu discurso – Lidiane, já passou por sua cabeça o bem-estar de sua família quando você vier a faltar? Em um momento de dor, o mínimo que podemos oferecer é a tranqüilidade, e como fazer isso quando não somos mais capazes de estar fisicamente ao lado daqueles, que durante a vida tanto nos apoiaram e amaram? Lidiane, venho aqui em nome da Funerária Santa Casa, oferecer-lhe nosso plano Prevenir Plus. Este plano de assistência familiar apresenta os serviços póstumos com a melhor relação custo benefício disponíveis no mercado. Veja bem Lidiane, em nosso plano...
O rapaz continuava a falar, soltava palavras com tamanha elegância que hipnotizava Lidiane. Falava sobre a morte como quem olha para o arroz, já queimado, apontando várias soluções para o almoço. Oras, ele seria capaz de convencer alguém que o arroz não estava queimado. Oferecia opções, lançava valores ao ar, soluções, paz e tranqüilidade. Ele sabia do que falava, com certeza. Lidiane nada ouvia. Mantinha-se ali por pura curiosidade de encarar aqueles olhos familiares. Era certo, conhecia-os de outros tempos.
- Não entendi, o senhor poderia explicar mais uma vez. -  Ela dizia, sempre que o silêncio se instaurava. E lá ia o rapaz, uma vez mais executar seu discurso tão bem ensaiado.
No entanto, um cheiro desagradável se infiltrava no ambiente. O leve perfume nostálgico de flores agora era escondido por um forte odor de enxofre. Cada vez mais forte, o desprazer olfativo competia com o prazer visual e auditivo de acompanhar aquela fala. O jovem, notando o cheiro, resolve então ser mais direto.
- Fechamos negócio então Lidiane? Basta que assine aqui e zelaremos pela tranqüilidade de seus entes queridos quando o momento se apresentar.
- Sim, sim, claro. – E sem muito refletir ela assinara, mesmo sabendo que não tinha no mundo uma só pessoa com quem se preocupar. Sua mãe morrerá quando ela ainda era jovem, e seu pai falecera há dois anos. Isso era a sua família. Não havia mais nada. Mas a promessa de paz e tranqüilidade fora maior. Logo, por que não?
Tão inesperado quanto a visita do vendedor de tranqüilidade, veio um ruído ensurdecedor. O som pareceu ressoar em todos os órgãos de Lidiane; machucando. Antes mesmo de se perguntar o que fora aquilo, o mundo se tornara escuridão. Pressionando seu corpo contra o chão, o teto desabou sobre seu corpo. Um cheiro acre de mofo misturado com esgoto e uma pressão forte em sua cabeça a levaram diretamente para o silêncio; absoluto.
Não se sabe quanto tempo se passou, mas ele passou. Lidiane, embora ainda na escuridão, via um pequeno ponto de luz em meio à pilha de destroços que a cobriam. Estava soterrada. Após alguns segundos ela decide-se por agir. Com algum esforço se desvencilha dos restos de parede e levanta. O pequeno prédio, onde antes era o apartamento de Romeu, não existe mais. Onde ficara a bagunçada coleção de vinis de seu ex-marido jazem agora as paredes de dois andares de entulho. Em pé, Lidiane contempla, ainda perplexa, toda a destruição. Tranquilidade.
Ao longe, o som insistente de uma buzina convoca a atenção de Lidiane para fora de si. É o táxi. Mas que diabos quer comigo? Por que não vem me ajudar? Virando-se vagarosamente, Lidiane desliza até o táxi. Essa conta deve ter ficado caríssima, pensa ela enquanto flutua em direção ao carro amarelo.
- Vamos, hora de partir! Não agüento mais ficar aqui. Senta aí e nos tira daqui. – Diz uma mulher, no banco de passageiros, cujo rosto é exatamente igual ao de Lidiane.
Incapaz de compreender, Lidiane vira seu rosto para o lado, inclinando-o levemente, na esperança que mudar a posição do cérebro e o ângulo de visão, de alguma maneira, fosse uma atitude capaz de ajudar os pensamentos a se organizarem e fluírem novamente. Não, não surte efeito.  Até que uma voz conhecida a retira do momento de estagnação.
- Vai ficar parada feito uma louca aí até quando? – Era Romeu, no banco de trás do táxi, abraçado a mulher idêntica a Lidiane. – Vamos!
Em um sopro vívido de compreensão ela olha para trás, para o monte de entulhos que ela limpara por meses. Virando-se ela encara Romeu, enfrenta a sua própria imagem abraçada a ele; acessório daquela existência. Ela era isso? Uma parte dele?
- Entre. – Ele diz uma vez mais – Vamos.
 - Não, não vamos. Você já leva consigo parte de mim, agora é hora de eu ir sozinha com esse resto que me resta. – E assim, virando-se em direção contrária ao táxi, ela flutuou em direção ao infinito de possibilidades, cheia de perguntas, mas sem âncoras.





Explosão em prédio residencial mata quatro em Taubaté


Uma explosão em um apartamento matou quatro pessoas na região da Estiva na manhã do dia 13 de julho. A polícia e os bombeiros ainda averiguam a causa da explosão, mas indícios apontam para um vazamento de gás. Dentre as vítimas foram identificados a dona de casa Maria Eduarda Galvão, 32, e seu marido, o coveiro José Paulo Galvão, 37.  Outros dois corpos foram encontrados no local, mas ainda não foram identificados. Os cadáveres foram encaminhados para o IML de Taubaté. Quem são essas pessoas? Essa é mais uma dentre as muitas perguntas sem resposta que envolvem este triste acidente.














Crédito: Imagem 1 - Perfect Lovers, por  Felix Gonzalez-Torres.
              Imagem 2 - Memories, por Quovandis.

A pirâmide


I – O Paiva

            Até quando vou fazer isso? Masoquismo? Nostalgia? Hábito? Necessidade de contato social? Nada melhor para fazer? Fuga...Sabe-se lá porque me arrasto até o bar para encontrá-los. De fato, importa? Como costumam dizer, essa é a vida, e ninguém precisa de mais um anônimo pensando feito porta de banheiro de rodoviária. Quando se cai até a meia idade é indicado parar de se perguntar demais sobre isso tudo. Não dá para rastejar pelo que resta de vida tentando descobrir a lógica do silêncio de cada mendigo de porta de banco. É isto: somos os três amigos e tornamos a nos encontrar para tornarmos uns copos.
Não me agrada, mas convém repetir mentalmente. Eu sou isso. Um cara que acabou sentando em um bar, happy hour, rodeado por pessoas desconhecidas cujo passado nos gruda umas as outras: passamos pelo período de faculdade juntos, deveria ser só isso, mas insistimos. E hoje, não há sorriso que não seja amarelo, não há abraço sem perfume de mofo, não há nostalgia que sirva para algo além de evitar o silêncio. Mesmo os dentes clareados quimicamente do Ferreira, brilham algo de podre ao serem emoldurados em seu rosto de vendedor, bem sucedido, de carros.  E a barriga imensa do Ivan, cada vez mais fazendo jus ao apelido de “o horrível”. Não somos mais os mesmos, aqueles jovens que curtiam tomar umas, com os olhos nas minas, enquanto falavam alto seus sonhos sobre o futuro, não existem mais; há muito tempo.
- E chega o Paiva e sua clássica magrelinha. Ah meu velho, você tem que me deixar te vender um carro. Te faço um descontão, parcelo...É só você pedir. Amigos são para isso! Até você consegue pagar.  – E assim, do alto de seus quase dois metros de orgulho, Ferreira me recebe.  Ele brinda com o vazio, apontando seu copo de uísque para o alto em minha direção. E lá se vai mais uma dose de Red Label para dentro. Minha boca se enche de água.
- Não preciso de carro Ferreira, ao contrário de certas pessoas, não tenho necessidade de colaborar com a destruição do mundo. – Eu rebato, mais por hábito do que por convicção.
- Sim, claro.
- É tão difícil aceitar que alguém não quer um carro?
- Sim, isso mesmo. Olha aí Ivan, nem chegou e já está dando discurso. É um puto mesmo esse Paiva.
Ivan, o horrível, como sempre, empunhando sua arma de longa data, a dose de cerveja, concorda com Ferreira, fazendo lhe um gesto de brinde com o copo, agora vazio, tal qual seu sorriso, discretamente replicado.
Maldito gordo. Tem hora que é melhor falar sozinho viu. Mal cheguei e o Ferreira já começa com suas insinuações. Jogando na minha cara que não tenho carro. Se acha o melhor só porque tem dinheiro. Pobre desgraçado. E ainda insisto com ele. Como se não fosse possível ser bem sucedido na vida e ainda assim pobre. Pobreza é minha opção, uma ação política. Minha bicicleta, minha casa, meu emprego. Eu escolhi isso tudo, não sou um vendido superficial e hipócrita como...Maldita tranca! Emperrando de novo, marca de merda. Mês que vem compro uma tranca descente. E ainda trava justo agora...só para me fazer passar vergonha. Foda-se! Vou beber.
E assim começava mais uma noite. Na porta do velho boteco dos tempos de facul os três se reencontram, novamente. Após um pequeno embate com a tranca da bicicleta Pauva finalmente podia beber tranqüilo sem se preocupar com roubo. E assim ele pulou para o bar, mas não sem antes, carinhosamente, carimbar o pneu de sua magrela com um chute, reprimenda mais do que justa.

II – O Ivan, o horrível

E o que não faço pela vaca da Alcione e aquela peste de moleque? Bastardo filha da puta, literalmente. Faço tudo por eles. Sim, tudo...Para me ver livre deles. Mais um brinde Paiva, por que não? E esse ainda vem com um riso falso de brinde, ou você acha que sua piada teve mesmo graça?
Em que mesmo eu estava pensando? Sim, nos carrapatos que deixei em casa; duas das criaturas mais repulsivas que conheço. Assim como estas com quem sento. Oras Ivan, não seja injusto, eles não são mais repulsivos que a massa com que você tem que trombar pelas ruas diariamente. Laços, amigos: o melhor no pior? Como se você fosse diferente. Ivan, ser repulsivo é uma qualidade inerente ao ser humano, urbano. Urbano, repulsivo: você Ivan. Volta! Para de filosofar: você é diferente. – E por isso brinde, ria; óbvio.
Por que fui me casar com aquela vadia? Minha vida era perfeita: sambinha, cerveja e buceta, de vez em quando. Ok, muito de vez em quando. O mal do homem? A necessidade de sexo que travestimos de amor. Tenho certeza que é por isso que estou com a puta da Alcione. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando, não é assim a sabedoria popular? O idiota aqui acreditou. Tudo por sexo...Sexo? Veja os cachorros, são mais sinceros que muita gente. De costas uns para os outros; transam. A parada é só prazer. Amor? A palavra tenta, mas falha. É Incapaz de disfarçar o fedor do ato, a inconsciência do orgasmo, a natureza animal, natural, reprodutiva. Prazer? Eu digo: chantagem da natureza. Nós o sentimos ao comer, espirrar, cagar, meter, opa; amar. O prazer é a maneira que a natureza encontrou para nos obrigar a seguir em seus trilhos enferrujados. Essa é a viagem, longa, mas sempre nos trilhos. Se quiser olhe para os lados, mas eu não aconselho. Lá vem um brinde. Sim Ivan, agora é a hora de  balançar a cabeça em sinal de aprovação, isso é suficiente para o Paiva e para o Ferreira te deixarem em paz por mais alguns minutos. Não seja injusto, não é tão ruim assim, pelo menos se livra da Alcione por algumas horas. Bora beber, sem pensar. E aí vem mais um brinde. Até que hoje eles estão um pouco mais suportáveis.
Veja o Paiva. Paivão...Queria ser como você cara. Um fracasso sim, mas protegido por toda uma ideologia do mal sucedido, uma luta imaginária contra o sistema. Pobre Paiva, de quantas revoluções participou? Todas, sem exceção, você e seu travesseiro, sob o vigilante olhar do forro do teto e da poeira do ventilador. O invejo por ter ornamentado seu fracasso com utopias. Olha para mim? O que sou? Só um fracassado. Para você, que é branco, é fácil escolher ser pobre. E eu? Negão, sem talento, e saco, para futebol; sem coordenação para o pandeiro; sem estatura para bandido: baixo, gordo e de pinto pequeno. Sou um fracasso até para estereótipo.
Isso Ferreira, o jeito é não pensar. Mas você precisa pensar em que? Seu pai te deixou uma fortuna. “Importadora F&F, porque é sua obrigação realizar seus sonhos”. O que te preocupa além de comer e encher a cara até não poder mais? Será que você ainda mete com aquela gostosa da Jéssica? Será que algum dia você se perguntou o porquê de uma gata daquelas casar com uma pessoa tão feia como você? Tenho certeza que sim, mas deve esconder essas inseguranças no fundo da carteira. Dentre nós você é o que sempre teve o espírito mais prático, e somente por isso te invejo. Um brinde? Claro. Deixa vida me levar, vida leva eu. Bem, hora de evoluir esse porre para algo mais forte:  
- Galera, este papinho está ficando bom. Estou passando para a cachacinha, me acompanham?
- Sai dessa Ivan. O esquema vai ser uma rodada de Red, minha conta. – Retruca Ferreira.
- Larga dessa porra gringa, prefiro mil vezes a boa e velha cachaçinha; tesouro nacional. Esta merda escocesa que você bebe ainda te mata Ferreira. Pega a cachaça lá Ivan, eu te acompanho. Hoje a noite promete.  – Responde, como se esperava, o Paiva.
Promete? É sempre uma promessa; nunca cumprida. Assim como nós três. O jeito é a cachaça mesmo, quem sabe na próxima vez que for ao banheiro o espelho me entregue uma imagem melhor. Promessas? Fico com as certezas: um sono bêbado, sem sonhos, sem notar a presença, o fedor, da minha loira.

III – Ferreira

- E o que foi prometido ninguém prometeu, nem foi tempo perdido... - Animado por um bocado de dozes de Red, Ferreira gritava a música de seus ídolos. Tudo se encaixava, fazia sentido. Segundo sua concepção algumas músicas somente ganhavam sentido ao serem cantadas, gritadas, embebidas em longas tardes de uísque.
- Temos nosso próprio tempo! 
E ao som destas palavras morreu Adenor, que por ali só passava. Seu corpo se chocou contra o importado japonês de Ferreira tal qual uma mosca. No alto de  sua ebriedade e de sua empolgação com o mundo que, agora, fazia sentido pois era acompanhado pelas letras do grande Renato Russo, Ferreira só percebeu o impacto. Não vira nada, só a sombra que se jogou sobre seu carro.
 Traumatismo craniano, seis costelas quebradas, um pulmão perfurado, hemorragia interna, fratura exposta na coxa esquerda e no braço direito, muito cansaço, um tanto de sono e um restinho de sonhos; isso era Adenor. O velho talvez voltasse do trabalho, talvez estivesse indo para o turno noturno. Do bar ou da fábrica? Cidadão de bem ou ladrão? Importa?
Velho, esta foi a conclusão de Ferreira ao ver o corpo jogado no asfalto. Adenor não morreu na hora, após o trauma seu corpo cortou sua consciência, de maneira a preservar funções vitais. Tal fato fez com que seu peito ainda se movesse, se arrastasse, quando Ferreira carinhosamente colocou novecentos reais em um bolso do jeans, agora rasgado, que vestia o velho. O pulmão ainda cumpriria sua função por mais alguns minutos, numa tentativa desesperada da vida de permanecer naquele corpo gasto, mas Ferreira não estaria ali para presenciar essa cena.
Desesperado Ferreira sumiu dali tão rápido quanto apareceu. A rua estava deserta, mas em casos como esse não se pode facilitar para o azar. Tremendo, e um pouco mais sóbrio devido à adrenalina, ele pega seu celular, precisa de ajuda.
- Ô Dinei, seguinte, deu merda mano, preciso dar fim no meu carro.
- Relaxes seu Ferreira! Easy man. Que pegou? Que ocorres?
- Deu merda porra. Peguei um cara na rua.  O velho está vivo, graças à deus, mas como estou trêbado sai andando. A merda é que meu carro está todo zoado, sangue e tudo..Se a polícia me pega estou fudido. Me ajuda mano.
- Porra! Me fala do carro. Está zuado como? Consegues sair de perto da treta?
- Zoado caralho! Sangue para todo lado, mas andando. Mano, dá um jeito nisso para mim. Preciso sumir com o carro. Verba não é problema, me ajuda velho.
- Compreendido. Só que ficar malucão de nervosismo não ajudas em nada. Tem maconha ae? Se não tiver te levo um trago. Tu precisa se acalmar. Vai fazer o seguinte: diriges para o ferro-velho do Caixinha. Lá, esperes no portão. Tou lá em quinze minutos. Combinados?
- Demorou, Dinei. Cara, te devo essa.
Em cinco minutos Ferreira estava no ferro-velho, no ponto combinado. A rua estava deserta, escura, perfeita. O bairro industrial não tinha movimento algum durante a madrugada. Um pouco mais tranquilo, e compactuando com a escuridão do local, Ferreira começou a pensar no acontecido: a culpa chegou forte. Como pude machucar tanto um inocente? Que espécie de pessoa sou eu? Dirigindo por aí machucando vovôs. Se bem que ele deveria estar voltando do bar. Não! Não há desculpa. Mas na certa o dinheiro ajudará bastante. Há males que vem para o bem.
E então Ferreira se lembrou de algo de extrema importância. Merda! Pegou seu celular e ligou 190. Ao ser atendido, rapidamente desligou. Idiota! Podem te rastrear. Com o celular no bolso e o carro trancado Ferreira correu em direção a um orelhão.
Preciso ajudar o homem!










Crédito: Painel de Lourenço Mutarelli em Transubstanciação. Você pode fazer o download aqui.

O ato de Helena.

Silêncio.

O tédio e o cheiro de mofo trazem consigo lembranças nostálgicas de uma infância embolorada na memória. Meu irmão, hoje empresário milionário, naquelas tardes amarelas não passava de uma sombra do outro lado do corredor da velha casa de praia. O chão, todo em madeira, brilhava; marca do zelo de mamãe. Do outro lado do corredor ele vinha: o carrinho. A miniatura de qualquer carro de luxo da época era lançada por meu irmão, com toda força de seus músculos em desenvolvimento, em minha direção. Eu o pegava e lançava de volta. Essas eram as tardes na casa de praia em meus primeiros anos: sem praia ou prazer, lágrimas ou risos. Ah, aquelas tardes...talvez nem fossem tardes. As coisas eram assim, não havia no que pensar. Imersos na correnteza do tempo, fomos levados, dia após dia, para longe daquele corredor.  

Hoje ainda há garotos que lançam seus carros em minha direção. Embora a brincadeira seja outra, também não há sorrisos; tão menos prazer.O chão não é de madeira, mas nele há brilho. Tudo aqui brilha e se disfarça de limpo. Há necessidade de transparecer limpeza. Como as câmeras não captam o cheiro de mofo, ninguém se preocupa com ele.


Somos três agora. Duas garotas e um garoto. Observo-os brincando; lá fora e aqui dentro. Toco-me com a leveza de uma lembrança. Enxergo novamente as ondas pela janela da velha  casa de madeira. Enquanto eles se divertem eu os observo. Ele me chama, chega de diversão solitária. Ele quer brincar comigo agora; é minha vez.
Flashes se tornam relâmpagos, relembro de um medo infantil. Vejo-me nos braços de meu pai, o aconchego que tal abraço trouxera outrora agora é apenas calor e suor; transpiração. Sinto falta de meu pai. Seria ele me olhando através daquelas lentes? Sua ausência me preenche, um gemido escapa. Viro meus olhos, vejo o teto, a parede branquíssima. Escuto uma voz de autoridade, é um elogio: “Continue assim Helena, está lindo”.
Estará a casa da praia abandonada? Vazia, suja? Talvez invadida ou demolida? Existirão ainda crianças brincando nela? Continuando a jogar brinquedos de um lado para outro do corredor, imersos no tempo...passando o tempo. E o chão, como se manteve limpo sem mamãe? As crianças vão destruí-lo; tenho certeza. Não há mamãe, não há papai, não há ninguém que impeça esses garotos desconhecidos de jogarem o carrinho cada vez mais rápido, cada vez mais forte. Bando de brutos,  assim vão estragar o chão de madeira. Arranhá-lo, manchá-lo. Danificá-lo sem volta. Parem! Preciso fugir dessas imagens.
Penso em meu pai. O que será dele? Ainda há carne em seu corpo? Ou será ele apenas um punhado de ossos protegidos do abraço da terra pelo melhor caixão que o dinheiro de meu irmão pôde comprar? Onde estará aquele que amei, embaixo da terra? Com deus? Aqui, dentro mim? Sinto dor. Olho para o céu e vejo somente teto. Abraço-me ao ator com quem contraceno. Olho em seus olhos; busco vida. Rasgo sua carne com minhas unhas, descubro sangue; quente. Ele me inunda. Calor, dentro e fora de mim. CORTA!
Sinto frio.
O diretor me elogia à distância com um aceno de cabeça. Não valho uma palavra? Meu parceiro não está tão grato. Reclama, mostra o sangue que escorre pelas suas costas. Tudo pela arte querido. Ele retruca – Estamos na indústria da masturbação e não há beleza na porra – enquanto sacoleja seu brinquedo, agora molenga. Eu sorrio indagando – Por que não? A pergunta fica em minha cabeça. Ganho o aconchego de uma toalha branca e a promessa de limpeza feita por um banho quente.
Vapor e água quase fervente. Meu pai me limpa. Ensaboa meu corpo rapidamente, sou mais uma de suas obrigações intermináveis. Suas mãos são grossas, calejadas do trabalho diurno na oficina. Sem carinho, mas com cuidado, ele me lava tal como uma peça de carro de um cliente qualquer. Desde a morte de minha mãe tudo tivera que se tornar rápido e distante, ele não faz por  mal. É assim que tem de ser. Carinho se tornara uma especiaria que não tínhamos tempo suficiente para usufruir. Limpa, punha-me a esperar o jantar assistindo TV.
Meu pai morreu e estou suja.
O barulho da descarga me lança à realidade. Não tinha percebido que estava acompanhada. De volta ao presente, a pouca felicidade com que me ensaboava começa a perder o efeito. Sei, com toda a certeza, que nunca superarei a morte de meu pai. O tempo, dizem, cala as mais dolorosas feridas. Não sou capaz de acreditar, tudo lembra-me ele. Sim, sou dramática. Algum problema? Todos, mas o relógio não para.
Horário para chegar, comida para fazer, sorriso para usar. Visto-me rapidamente e pego o dinheiro com o Rubinho. Falta uma parte da grana. Reclamo. Semana que vem pagamos tudo. Xingo! Mandam-me reclamar no sindicato. Cuspo. Engulo.
Pego um táxi para casa. Ao ouvir o primeiro comentário a respeito do clima peço silêncio. Hoje não. Viajamos breves, cada um em seu silêncio. Peço que pare no bairro vizinho ao que moro. Assistente administrativa não tem dinheiro para ir de táxi para casa, tem?
Caminhar me faz bem. Oxigena o cérebro. A leve brisa do fim de tarde leva-me longe. Distancio-me dos carros, das buzinas, da vida ao rés-do-chão. O toque delicado de uma teia de aranha em meu rosto subtrai-me das garras da gravidade e me coloca a levitar ao cálido sopro do ar. Os cheiros e dissabores do chão não mais me tocam. Levada pelo vento vou-me veloz até a outra vida: dona de casa, das 18h as 24h. Entro pelo buraco da fechadura. Silenciosa, leve. Vejo meu marido. Espanto. Odair vendo pornô? Está a me ver. Ele me vê. Intrigada, com sabor de alívio e felicidade na boca, apóio-o me na porta em busca de sustentação enquanto ele caminha em minha direção. Finalmente saberei sua reação. Ele me toca; me toca dali. Suja, nojenta. Puta ordinária.  
Jogada para longe rolo pelas escadas; dura. Não respondo aos seus insultos. Após alguns instantes caída me levanto. Calo-me em voz alta. Enquanto desço as escadas penso em tudo que poderia ter lhe dito e não o fiz. Suja, nojenta? Oras, já passou por sua mente desvalida que talvez eu goste do que faço? Você seria capaz de compreender isso? A sujeira que sinto cobrindo meu corpo só existe pois foi jogada por suas palavras, por seu olhar, por seu pensamento manco.Puta ordinária? Oras, sou atriz! Sou tão atriz que tenho fingido ser feliz ao viver esse papel secundário, que o seu intelecto “superior”, de “escritor”, me elencou. Sou atriz sim, e é minha atuação que tem sustentado as histórias que você não tem produzido ao passar o dia todo a reclamar do “estado das coisas” de bar em bar. Grande provedor de folhas brancas, vazias: eis você! Esses seus sonhos, jogados sobre a escrivaninha, sobre o papel, nada há de real neles. E ainda assim eu os financio; seus devaneios de fantasia. Sim, sou eu quem pago tudo nessa casa, da comida na mesa à cerveja no copo para você se descontrair. Relaxar? Do que? Sim, sou atriz, e acabo de engolir tudo isso que poderia lhe dizer. Em engolir sou boa, não?  
À portaria do prédio onde vivo meu monólogo silencioso é finalizado abruptamente; sem minha permissão. É o seu Zé, o dono do prédio. O aluguel está atrasado demais para o velho se dissuadir pela minha aparência transtornada. Sou breve - Aqui está o dinheiro seu Zé, mas não fale para o Odair quem pagou, por favor. O velho me responde com um sorriso de canto de boca e um abraço. Um abraço. Sua magreza me permite sentir seus ossos, sua coluna torcida pelo tempo, suas mãos trêmulas. Abraço-o com carinho. É uma troca de favores: ele pensa que o estimo e eu relembro o abraço de meu pai.
Saio sem destino. Voltarei amanhã, talvez. É provável. Odair está batalhando com seu orgulho agora, mas a fome e o tesão sempre vencem essa batalha, basta tempo e paciência. Sento-me à porta de um prédio em construção. Observo um enorme caminhão despejar concreto em uma tubulação que se eleva até o ultimo andar em construção. As maravilhas da modernidade tecnológica, as aberrações da humanidade. Concretar o céu, criar terra firme no ar. Tolice. Lá, no alto, homens trabalham nessa abominação. Vê-los me força ao chão. Tenho ânsia. Deito-me.
Um bueiro; o abismo me acolhe. Em meio a baratas e ratos retorço-me em vergonha. Vejo meu pai e Odair se aproximando. Como pude trazê-los aqui? Como justificar que me deito na sarjeta? Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Dissolvo-me rumo aos esgotos onde não há luz para revelar meu corpo sujo. Lá em cima, onde ainda há iluminação, os vejo. Rastejo para onde não há sombras. Fecho meus olhos com força, para fugir de seus olhares carrascos. Tampo minhas orelhas para não ouvi-los, mas suas vozes inquerem-me, mesmo aqui. Quão mais baixo preciso ir? Quão mais suja preciso ser? Calem-se. Deixem-me. 


            
              Ser. 





Crédito das imagens: Marion Fayolle

Felicidade, um filme B.


E repito:

É mulher? É bonita? Gostosa mesmo? Pois então, é ela!

E nunca foi você.

Nunca fomos NÓS.

Mulher bonita sempre arranja emprego e você sabe bem o que quero dizer com “sempre”, não? Mas enfim, baixe um pouco suas expectativas; é o melhor a se fazer. Olha, você pode ser um manequim disfarçado de vendedora em lojas de sapato/móveis/casa/imóveis ou uma secretária (mas, por Deus, chame-se auxiliar administrativa ou secretária executiva!), só não se esqueça que, de nada importa a profissão escolhida, a beleza continuará sendo um diferencial que nunca terás. É óbvio que ninguém fala isso. Talvez conscientemente até tentem se convencer que não levam em conta os aspectos físicos mais aparentes, mas não tem como escapar, a mais gostosa sempre é escolhida pelo seu “currículo”. Por que você não trabalha como vendedora de chip de celular? É mais fácil.

Veja bem, existem dois grupos na humanidade: os belos e os não. A beleza é relativa? Sim, é um padrão social situado no tempo, e, vamos lá: você é feia! Sabe aquele cara todo malhado para quem você perguntou onde era o departamento acadêmico de engenharia? Sim, aquele um que fingiu que não te escutou. Fosse bonita e ele tentaria puxar assunto enquanto te acompanhava até o local, pode ter certeza, e ainda tentava te convidar para uma cervejinha imaginando que com o álcool tivesse a chance de ter seu corpinho. Corpinho...Isso é natural e você sabe disso tão bem quanto eu. A única diferença entre nós e os outros animais é que criamos um sistema complexo que estipula os padrões de dominância, e, querida, quando você não os possui só lhe resta conviver com o desprezo. Sem dinheiro, sem beleza, sozinha, o que resta?

Ah, já sei! Vai encontrar seu gordinho e tentar se convencer a vida inteira que a aparência é secundária? Que o que importa é o “que se tem por dentro”? Tudo bem, assim você pode comer até chegar aos cem quilos e tirar disso o prazer de sua vida. Escolhas, escolhas. Isso tudo, é claro, enquanto deseja os corpos malhados dos galãs das novelas e admira a beleza “interior” do monte de carne ao seu lado apelidado de "amorzinho". Seria uma pena se ele não te fodesse há seis meses, não seria? Esse é o seu futuro, e ter comido aquele X-bacon no café da manhã não ajudou em nada.

Desculpe-me se fui muito dura, não faça essa cara. Lembre-se, o mal que te inflijo é a mesma dor que sinto. As vezes, ao pensar no passado, sinto-me triste, por mim; por nós. Éramos tão diferentes, você se esforçava. Tudo bem, eu entendo que mesmo se esforçando as coisas não eram as mil maravilhas, mesmo na magreza não éramos lá grande coisa. Mas convenhamos, relaxar tanto assim? Aquele passado, que quando presente nunca me agradou, é hoje um paraíso se comparado com esse inferno que vejo; que vivemos. Sim, vou te relembrar todos os dias, todos os momentos se possível, daquela criança gordinha, fofinha, cujos cabelos encaracolados ainda eram acariciados pelos ventos da esperança. Olhe-se e admita: estou certa!




      Ao terminar de passar o batom ela olhou uma vez mais para o espelho, de relance. Não agüentava mais escutar a si própria resmungar. Seu reflexo lhe causava náusea. Respirou fundo, olhou as horas e percebeu que estava atrasada; melhor assim. Apressada, pegou sua mochila, seu celular e as trufas que preparara noite passada.  Selecionou uma música qualquer que a entretivesse e partiu. Tinha muito que fazer hoje, entre o trabalho, a faculdade, as contas do mês e a mãe doente, ouvir um cara cantando o amor era o melhor que podia esperar do dia. Ao menos era isso que ela imaginava.

      Distraída ela caminhava, contava os intervalos entre os pisos da calçada, desviava de montes de merda de cachorro e camisinhas abandonadas. Na caminhada, de sua casa até o trabalho, só descolava os olhos do chão ao atravessar a rua. Foi quando, feito um chamado de outro mundo, escutou um assovio vindo do outro lado da rua. Era Mateus, colega de infância, hoje modelo de cuecas. Ele acenava em sua direção. Espantada olhou-o, sorriu. Há tempos eles se trombavam pelas ruas e ele sempre fingiu não reconhecê-la, mas isso era passado. Um grito! Um olá! 

    Foi quando, rápida como o lampejo de felicidade que tivera, passou por trás dela Chintya, a namorada de Mateus. Coincidência, era óbvio que ele não estaria falando com ela; a gorda, mas sim com sua namorada: burra; mas gostosa. Talvez “burra” fosse um exagero, talvez. Envergonhada de existir ali naquele momento, atrapalhando a vida das belas pessoas, abaixou a cabeça e saiu caminhando rápido para sair do caminho. Os desenhos geométricos da calçada a acolheram de volta sem reclamar. Sua realidade, sua segurança. Olhou no relógio, estava atrasada, em algum lugar era esperada, apertou o passo e atravessou a rua.



- Você soube da gordinha da logística?
 - Gordinha da logística?
- É, aquela que todo dia depois do almoço passava aqui no setor vendendo umas trufas.
- Não lembro não, por quê?
- Fiquei sabendo que morreu atropelada mês passado.
- Sério? Mês passado?
- Exatamente, sacanagem.
- Te juro, não lembro dela, mas bem que aceitava uma trufa.


[Gargalhada]


[Gargalhadas]


[GARGALHADAS]


[The End]









Crédito da imagem: James Jean.